A governança de TI sustenta o “G” do ESG porque garante que as decisões sobre tecnologia sigam a estratégia, que riscos cibernéticos, de dados e de inteligência artificial sejam conhecidos pela alta direção e que as informações reportadas sejam confiáveis e rastreáveis. Referências como a ISO/IEC 38500:2024 e o modelo avaliar, dirigir e monitorar ajudam a organizar esse papel.
Nas conversas sobre ESG, o ambiental e o social costumam roubar a cena. Mas é o “G”, de governança, que dá credibilidade aos outros dois: quem decide, com base em quais informações, com que controles e prestando contas a quem. E hoje praticamente toda informação que sustenta essas decisões passa por sistemas, bases de dados e, cada vez mais, por modelos de inteligência artificial.
O Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC, em sua 6ª edição, de 2023, passou a listar cinco princípios: integridade, transparência, equidade, responsabilização e sustentabilidade. Nenhum deles se sustenta se os dados forem pouco confiáveis, os acessos estiverem descontrolados ou os riscos de tecnologia forem invisíveis para o conselho. É aí que a governança de TI entra.
Por que o “G” depende da tecnologia
Na definição consagrada pela ISO/IEC 38500, governança de TI é o sistema pelo qual o uso atual e futuro da tecnologia é dirigido e controlado. Ela não se confunde com a gestão de TI, que executa. Na prática, a governança garante que investimentos em tecnologia sigam a estratégia, que riscos cibernéticos e de dados estejam no radar de quem decide e que as informações reportadas sejam rastreáveis.
O tema ganha peso com a agenda de relatórios. A CVM adotou, pela Resolução CVM nº 193/2023, as normas do ISSB para relatórios de sustentabilidade. Em maio de 2026, a Resolução CVM nº 244 tornou essa divulgação facultativa, no modelo “pratique ou explique”. Para quem decide publicar, a lógica é tratar essas informações com processos e controles semelhantes aos da informação financeira, e boa parte desses controles vive em sistemas.
O modelo que organiza o trabalho
A principal referência internacional é a ISO/IEC 38500, cuja terceira edição foi publicada em 2024. Segundo o comitê da ISO responsável, a nova versão está alinhada aos princípios da ISO 37000, norma sobre governança das organizações, e parte do modelo e dos princípios da edição de 2015. A ideia central é separar papéis: o órgão de governança avalia, dirige e monitora; a gestão planeja, executa e opera. Para o dia a dia, frameworks como o COBIT, da ISACA, ajudam a transformar esse modelo em objetivos, processos e indicadores.
No setor público, a lógica já está na lei. O art. 11 da Lei 14.133/2021 atribui à alta administração de órgãos e entidades a responsabilidade pela governança das contratações, com processos e estruturas de gestão de riscos e controles internos para avaliar, direcionar e monitorar licitações e contratos, o que inclui as contratações de tecnologia.
- AvaliarUso atual e futuro da tecnologia, riscos e oportunidades ligados aos temas ESG.
- DirigirPolíticas, prioridades, orçamento e responsáveis definidos pela alta direção.
- ExecutarServiços, projetos e controles conduzidos pela gestão de TI e pelas áreas de negócio.
- MonitorarIndicadores, auditorias e incidentes reportados ao órgão de governança.
- Prestar contasInformações rastreáveis para conselho, órgãos de controle e partes interessadas.
Os números que pedem atenção do conselho
Estudos recentes mostram onde estão as lacunas. A governança de inteligência artificial ainda é incipiente na maioria das organizações, e o uso de tecnologia fora do controle da TI, a chamada shadow IT, encarece os incidentes.
Os dois temas têm a mesma raiz: decisões de tecnologia tomadas sem dono claro, sem critério de risco e sem registro. Uma área que contrata uma ferramenta de IA por conta própria ou que guarda dados de cidadãos em uma planilha compartilhada não está, necessariamente, agindo de má-fé. Ela apenas não encontrou um caminho de governança simples o bastante para seguir.
A tecnologia também aparece nos outros pilares do ESG, em temas como eficiência energética da infraestrutura, acessibilidade de serviços digitais e inclusão. Sem governança, porém, esses projetos ficam sem metas, sem medição e sem prestação de contas, e o que deveria ser resultado vira apenas intenção.
Como começar sem criar burocracia
- Mapeie as decisões: quem aprova investimentos, aceita riscos, contrata fornecedores e autoriza o uso de IA.
- Crie um fórum com poder real: um comitê de tecnologia, riscos ou dados que reporte ao conselho ou à alta administração.
- Conecte riscos de TI ao mapa corporativo: ataques, indisponibilidade, vazamentos e dependência de fornecedores medidos na mesma régua dos demais riscos.
- Escolha poucos indicadores: disponibilidade de serviços críticos, incidentes relevantes, maturidade de controles e execução do portfólio de projetos.
- Documente para prestar contas: atas, políticas e relatórios que permitam a terceiros entender e verificar as decisões.
Próximos passos
Faça um diagnóstico rápido: a alta direção conhece os principais riscos de tecnologia? Existe política de uso de IA? Os dados que alimentam relatórios têm dono e trilha de auditoria? As respostas mostram por onde começar e quais lacunas atacar primeiro.
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Perguntas frequentes
Governança de TI e gestão de TI são a mesma coisa?
Não. A governança avalia, dirige e monitora o uso da tecnologia a partir da alta direção; a gestão planeja, executa e opera serviços e projetos.
O relatório de sustentabilidade é obrigatório no Brasil?
Para companhias abertas, a Resolução CVM nº 244, de maio de 2026, tornou facultativo o relatório baseado nas normas do ISSB, no modelo pratique ou explique. Quem optar por publicar deve seguir os padrões adotados pela CVM.
Por onde começar a governança de TI?
Mapeando quem decide sobre investimentos, riscos, fornecedores e uso de IA, e criando um relatório periódico de tecnologia para a alta direção.
Órgãos públicos também precisam de governança de TI?
Sim. A Lei 14.133/2021 atribui à alta administração a governança das contratações, com gestão de riscos e controles internos, o que alcança as contratações de tecnologia.
Fontes consultadas
- ISO/IEC JTC 1/SC 40, ISO/IEC 38500:2024 Governance of IT for the organization, 2024
- Movimento Econômico, IBGC lança a 6ª edição do Código das Melhores Práticas, 2023
- Legismap, CVM revoga obrigatoriedade de relatório de sustentabilidade e clima, 2026
- Cisco, 2026 Data and Privacy Benchmark Study
- Canaltech, Custo de violação de dados bate recorde no Brasil (IBM Cost of a Data Breach 2026)





