A formação de professores para o uso pedagógico da tecnologia funciona quando é contínua, parte de problemas reais da sala de aula e inclui prática acompanhada. Hoje muitos docentes aprendem sozinhos; o papel da rede é transformar essa iniciativa em um percurso estruturado, com tempo, apoio pedagógico e troca entre pares.
Plataformas, jogos, vídeos e ferramentas de inteligência artificial chegam às escolas em ritmo acelerado. A formação dos professores para usá-los com intenção pedagógica nem sempre acompanha esse ritmo. O resultado é conhecido: equipamentos subutilizados, usos que repetem a aula expositiva em outra tela e docentes sobrecarregados tentando aprender tudo sozinhos.
A boa notícia é que há disposição para aprender. Os dados mostram professores que buscam vídeos, tutoriais e colegas para entender novas ferramentas. O que falta, em muitas redes, é transformar essa iniciativa individual em percurso formativo, com tempo, acompanhamento e ligação direta com o currículo.
O retrato da formação hoje
A pesquisa TIC Educação 2024, do Cetic.br, ouviu professores de escolas de Ensino Fundamental e Médio. Pouco mais da metade, 54%, participou de alguma formação continuada sobre o uso de tecnologias digitais em atividades de ensino nos 12 meses anteriores. Ao mesmo tempo, a aprendizagem autônoma e entre pares aparece como o caminho mais comum.
A formação inicial também deixa lacunas. Segundo a mesma pesquisa, 66% dos professores realizaram ao menos uma atividade sobre o uso de tecnologias digitais no ensino durante a graduação, mas apenas 44% fizeram uma disciplina ou curso específico sobre o uso de computador e internet para ensinar.
O retrato revela um paradoxo. Os professores aprendem, mas aprendem sobretudo por conta própria, com vídeos e colegas, e menos com formadores da própria rede. A iniciativa individual é valiosa, mas tem limites: depende do tempo livre de cada um, nem sempre se conecta ao currículo e raramente vem acompanhada de retorno sobre a prática.
As barreiras que a formação precisa enfrentar
Quando perguntados sobre o que dificulta o uso de tecnologias nas aulas, os professores citam infraestrutura, mas também a falta de formação. E quem participou de formação continuada tende a avaliá-la de forma positiva, o que indica que investir nela vale a pena.
Outra barreira é o apoio no dia a dia. Para 20% dos professores, a falta de apoio pedagógico dificulta muito o uso de tecnologias nas aulas, e outros 31% dizem que dificulta um pouco. Formação sem acompanhamento depois do curso tende a se perder na rotina.
O que a legislação e os referenciais pedem
A Lei 14.533/2023, que instituiu a Política Nacional de Educação Digital, inclui entre as estratégias do eixo Educação Digital Escolar a formação inicial de professores em competências digitais, independentemente da área de formação, e a promoção de tecnologias digitais como ferramenta e conteúdo dos cursos de formação continuada de gestores e profissionais da educação. A mesma lei prevê ferramentas de autodiagnóstico de competências digitais para profissionais da educação.
A Resolução CNE/CEB nº 1/2022, que trata da Computação na Educação Básica, também orienta que a formação inicial e continuada de professores considere suas normas. Em 2024, o MEC publicou o Referencial de Saberes Digitais Docentes, acompanhado de um autodiagnóstico disponível na plataforma AVAMEC, que pode servir de ponto de partida para planejar percursos formativos.
Princípios de uma formação que chega à sala
- Contínua: encontros regulares ao longo do ano, e não um evento isolado no início do semestre.
- Situada: parte de problemas reais das turmas, como alfabetização, recomposição ou engajamento.
- Prática: o professor experimenta a ferramenta como estudante antes de usá-la com a turma.
- Colaborativa: aproveita a troca entre pares, que já é o caminho mais usado pelos docentes.
- Ligada ao currículo: cada atividade formativa conecta a tecnologia a habilidades da BNCC ou do currículo da rede.
- Com tempo garantido: a formação precisa caber na jornada de trabalho e, quando possível, ser reconhecida na carreira.
Um percurso em quatro momentos
- DiagnósticoAutodiagnóstico de saberes digitais e levantamento dos desafios de cada turma.
- Oficinas práticasExperiência com as ferramentas na posição de estudante e planejamento de uma aula.
- Prática acompanhadaAplicação com a turma, com apoio da coordenação ou de um formador.
- Partilha e ajusteTroca de experiências, análise de resultados dos estudantes e novo ciclo.
Como saber se a formação funcionou
Lista de presença e avaliação de satisfação são o começo, não o fim. Para saber se a formação chegou à sala de aula, acompanhe evidências em três camadas: o que os professores passaram a planejar, com aulas e atividades que incorporam a tecnologia com objetivo claro; o que passaram a fazer, observado pela coordenação; e o que mudou para os estudantes, em participação e em resultados de aprendizagem por habilidade.
Plataformas educacionais ajudam nesse acompanhamento ao registrar uso e desempenho, mas a leitura desses dados precisa ser feita junto com os professores, como parte da própria formação.
Próximos passos
Comece pelo diagnóstico: entenda o que os professores já sabem, o que querem aprender e quais problemas das turmas a tecnologia pode ajudar a resolver. A Midnal atua desde 2013 com tecnologia e educação, incluindo EAD, ambientes virtuais de aprendizagem, plataformas gamificadas e streaming educacional. Para conhecer como essas frentes podem apoiar a formação na sua rede, acesse Educação e gamificação.
Perguntas frequentes
Quantos professores fizeram formação em tecnologia recentemente?
Segundo a TIC Educação 2024, do Cetic.br, 54% dos professores de escolas de Ensino Fundamental e Médio participaram de formação continuada sobre o uso de tecnologias digitais em atividades de ensino nos 12 meses anteriores à pesquisa.
Formação on-line funciona para professores?
Pode funcionar, especialmente quando combina estudo autônomo com mediação e prática acompanhada na escola. O ideal é que cursos autoinstrucionais venham acompanhados de aplicação com a turma e de retorno de um formador ou de um colega.
Existe um referencial oficial de competências digitais docentes?
Sim. Em 2024, o MEC publicou o Referencial de Saberes Digitais Docentes, com um autodiagnóstico disponível na plataforma AVAMEC. A Lei 14.533/2023 também prevê ferramentas de autodiagnóstico para profissionais da educação.
Como envolver professores resistentes à tecnologia?
Partir de problemas que eles já reconhecem nas turmas, mostrar exemplos de colegas da própria rede e garantir apoio durante a primeira aplicação reduz a insegurança e aumenta a adesão.
Fontes consultadas
- Cetic.br, TIC Educação 2024, indicador H1 (meios de autoformação ou formação em serviço)
- Cetic.br, TIC Educação 2024, indicador H2 (atividades na graduação)
- Cetic.br, TIC Educação 2024, indicador H3 (formação continuada nos últimos 12 meses)
- Cetic.br, TIC Educação 2024, indicador H9 (contribuição da formação continuada)
- Cetic.br, TIC Educação 2024, indicador I9_1 (barreiras para o uso das TIC)
- Lei 14.533/2023, Política Nacional de Educação Digital (Planalto)
- Resolução CNE/CEB nº 1, de 4 de outubro de 2022 (Computação na Educação Básica)
- Will, Espíndola e Cerny, O Referencial e o Autodiagnóstico de Saberes Digitais Docentes do Brasil, Revista Educação e Políticas em Debate, 2026





